terça-feira, 1 de agosto de 2017

mundão

mundão
kelly guimarães


ele gostava de estudar, não gostava era da escola. o menino. não gostava de calçar sapato e ficar sentado no banco da classe, olhava pela janela. a professora, dona genuína, queria os meninos todos quietos de olhos abertos e boca parada. mas enquanto ela falava, aquele, o menino, pensava em muitas perguntas, o seu problema era um buraco que tinha na cachola e o querer de caber ali o mundo inteiro.

quando aprendeu ajuntar letras foi o mundo que bateu à sua porta, inundou seu travesseiro, os bolsos do calção, seu café com leite e até o balanço atrás no laranjal. as letras lhe contavam o segredo do mundo e o menino mais podia perguntar e ouvir e ler e pensar. e o menino lia tudo quanto era letra, lia embalagem de macarrão, placa de posto de gasolina e até vidro de remédio.

e bem sentia o gostoso que era saber ajuntar as letras e imaginar as coisas dentro do pensamento, como quando leu as aventuras do avião vermelho que a professora o deixou levar durante as férias.

às vezes ele pensava no mundão de palavras que existia e qual era a serventia de tantas “ será que sobra palavra no mundo que fica sem usá e some na desaparecência da cabeça da gente?”

o menino passava as tardes explorando no quintal de casa, guardava insetos num pote de vidro só para vê-los no esforço de fugir, depois soltava os sobreviventes. num outro guardava coisas quebradas e pedaços de coisas velhas, coisas que ninguém queria mais, pensando que um dia iria grudar umas nas outras e montar uma grande e incrível máquina, que ele ainda não sabia qual era.

ele, o menino, era curioso de saber o que era o cinza grosso no céu antes da chuva cair, como era que a luz acendia na lâmpada e se bem-te-vi entendia o pio do pardal e vice-versa. aliás o menino se perguntava quem foi que um dia inventou o vice-versa, que é esse dizer que a gente usa pra um negócio assim-assim e o outro negoçado assim-assado que podem mudar de lugar pra dizer a mesma coisa e vice-versa.

mas nada que o menino pensava, perguntava ou lia, dava jeito no buraco da cachola, era feito uma frieira no pé, coça e dói, era feito o sentir uma aflição e agonia de maior grandeza que dava fogo nas pernas do menino e ele saia correndo, gritando, pulando barrancos e no fim rolava no chão dando risada. o povo todo olhava aquilo assim “menino doido"; porque ninguém não entendia que a doidera do menino era só vontade grande grande de entrar nas coisas para saber como era ser elas mesmas. uma vontade de desatarraxar os parafusos de tudo para ver o que tem lá dentro e quem foi que disse a primeira vez o nome de uma coisa quando ninguém sabia o nome dela, e se um dia a gente decidisse trocar os nomes e chamar cavalo de sapato, sal de mentira, bonito de feio e vice-versa, aí o pai diria: “menino ajeita o sapato na carroça que nois vamu pra cidade compra mentira!”


esse buraco na cachola do menino, era um sem-fim de imaginar. visava quando a mãe, lembrando de uma saudade, dizia que o coração estava apertado. “será que as tripas dão nó no coração? e quando a saudade puxa muita tristeza é o nó na garganta?” o pai ralhava: “menino vai caçar o que fazê.” e ele: "uai, já to fazeno, to curianZo!” é que as perguntas vinham feito pipoca estourando na panela, algumas até encruavam, era quando o pensamento fazia demasia de idéias que dava um silêncio de perguntação.

esse menino queria mesmo era conhecer o avesso do mundo e encher o buraco da cachola para ver se a coceira passava, mas ele sem saber sabia que tudo que ele via e revirava dava nele o abuso de querer ver um pouco mais, um tiquinhozinho mais, igual uma fome que depois do almoço já começa a pensar na janta. era isto: o menino queria comer o mundo.

“mas o mundo é coisa demais!” pensava. então ele inventou uma estratégia, essa coisa de palavra desconhecida, que era “um negócio que a gente pensa pra saber como é que a gente vai fazer a coisa primeira que a gente pensou”, e a do menino, como uma grande e boa idéia, era que ele iria comer o mundo aos poucos, sem pressa, um teco por vez e nisso os dias passando o fariam crescer e junto com ele cresceria o buraco da cachola, até que um dia, de tão crescido que fosse, o menino, o buraco, finalmente coubessem neles o mundo inteiro.

XXX



kelly guimarães, aprendeu a ler aos sete anos de idade em minas gerais, dos contos de fadas às bulas de remédio, cresceu entre palavras guardadas em livros, mais tarde moradora do riacho grande/sbc, matava aula pra ficar na "machado de assis", biblioteca do bairro. coisou teatro datilografia filosofia moda baralho literatura e crochê. paulista de nascimento, mineira de coração, tem o caos na cabeça escorrendo pelas mãos e vários buracos na cachola: uns transbordantes, outros à espera daquela coisinha com capa miolo e vida para além da vida. estantes.encantamentos.