segunda-feira, 12 de junho de 2017

Oito do sete


Oito do sete
Cristina Judar

Depois das nove da noite, Donanna precisava de silêncio para ouvir. Ainda de avental, colocava uma cadeira no pátio ao lado da entrada da cozinha e, com a cabeça para o alto, esperava. Quando as copas dos álamos batiam, a noite desabava, ela ouvia o mar, sem nunca tê-lo visto. Contou que havia um oceano ali, bem no meio da mata. Nascido de uma pérola trazida no bico de um passarinho. Ela germinou ainda úmida e fez sua concha com a terra de Roma. Cresceu no quintal e deu em uma bétula de tronco branco. Para Donanna, a árvore tinha cheiro de mar, do qual herdou o verde e o azul para as folhas. E fazia som de onda. Nas noites de sorte e de lua grande, era possível reconhecer até o canto da sereia.

Naquela noite, Magda ia e vinha em uma imagem que se aproximava e fugia. Como a face oculta de Magda, eu queria que certas passagens da minha vida se desconfigurassem, escuras. Ao menos, deixariam de ser peso e, mesmo que surgissem aqui ou ali, não teriam o poder de me fazer sentir inerte sob uma massa compacta. Por tempo indeterminado, eu não queria mais ter noite nem fechar os olhos. Dormiria o sono das manhãs, intenso à semelhança da morte, sono esquecido, ele é um tipo de experiência da qual não se carrega lembranças.

Donnana cozinhava caldos, matava seus galos, gritava com os meninos, ouvia o seu mar. Rick reatou com Jonas, virou Netuno bem-sucedido em ser imagem de referência.

Eu, finalmente, era uma vida entre panelas, lavagens, dessalgadas, embutidos; eles desenhavam meus contornos e eu me sentia como se sempre tivesse estado ali, tão invisível quanto indispensável. Trabalhar os músculos é esvaziar a mente, um amigo meu já dizia, e eu adorava ficar inteira vazia e previsível nas horas contidas entre o amanhecer e o anoitecer. No final do expediente doméstico, terminada a janta, a limpeza, encaminhadas as demandas do dia seguinte, não era só Donanna que ouvia sons impossíveis. Meu anoitecer era um amanhecer.

E tudo surgia vivo, como se para compensar as horas de omissão forçada enquanto me ocupava do plano físico. Eu também era um elemento estranho no quintal de Donanna, algo fora de contexto e alheio à história, bem no meio de Roma. Eu não tinha eixo e adotei o daquela cidade como se fosse meu. Eu não sabia que o meu centro era não ter centro.

*


Vista da janela, Roma poderia ser qualquer lugar. Até a lua ou longe de mim, a rua de casa, a sonda intravenosa que me percorreu quando virei rio e fui parar no hospital. Para esta cidade fui generosa, santa sentida de vilarejo medieval, não mais a sacrílega metropolitana de Magda. Nasci morrendo o que era necessário.

Mesmo que fosse uma vida imprópria, porém, e, até mesmo por isso, vida. Desci às margens do rio Tibre, logo acima de suas barras. Com fogo acima das minhas chamas, observei sua fúria esticada pela cidade, até que me sentisse, com ela, una. Uma Madonna capenga latino- americana, donna devastada, cadela sistina, coitada policística, pobre señora de ventre esvaziado e marido sem critérios, de filhos sem corpo, filhos de massa mezzo compacta, mezzo líquida no fundo vermelho que é persistir em nada. Se à vida tivessem chegado, a eles eu serviria leite de seios e papinhas grossas, mas não mais. Sopas de batatas roxas ou tomates, mas não mais. Ou beterrabas. Eram os herdeiros de uma linhagem estéril. Uma matrona de antisseres eu me tornei. Mulher de lua nunca cheia, apenas crescentes e novas, minguantes e ausentes, no final. Não por ordem de agulha de crochê ou por negação, mas por incapacidade de dar término.

A vida precisa de conclusão pra existir. Mas meus filhos não foram concluídos. Eu não me concluí. Nem rompi as minhas barreiras, não interceptei as minhas trompas, fiquei ainda mais líquida, um pouco mais do que já era. Donanna atravessou todo o quintal para chegar aos fundos, bateu à minha porta, eu precisava esquentar a água do caldeirão para a pasta da Quaresma. Demorei alguns instantes até atender. Tinha medo de, em uma dessas, evaporar, virar nuvem que só vive para correr e se transformar e jamais tem a chance de estar fixa no céu.

*
Whistler, Harmony in blue and silver: Trouville, 1865


Sentimento é mar. Emoção é onda. Eu vi um mar pontilhado quando olhei para o teto escuro do quarto, nas luzes que escapavam pelas frestas das venezianas havia uma composição aleatória, porém fixa, nas noites que se sucediam, presença contínua naquele trecho de cimento branco. Um oceano formado por um sem-número de gotas; gotícula eu, da vida. Feliz por pertencer a algo que não pode ser contado pelo fato de já ter nascido diluído, capaz de revolver entranhas e superfície em uma só massa aquática e indivisível, sem cara, impressão digital, cabelo ou víscera. Infeliz pela insignificância de ser diminuta e dispensável.

Se eu morrer, o mar não vai deixar de ser mar. Esse, aliás, é um sentimento comum quando se está cercada por coisas grandiosas e admiráveis, quando os lugares e coisas roubam o destaque das pessoas apagadas em suas peles, cabelos e digitais, empobrecidas diante das ruínas de cartões-postais. Em Roma, alguns homens estão dispostos a concorrer com sítios arqueológicos, em um embate desleal e já vencido, por isso tão gritadores, efusivos, seus estômagos carregados de paixões. Os homens se veem como torres. As mulheres no lugar de cisternas. Crianças-pontes. De pele e carne, uma cidade.

                                                      XXX




Cristina Judar é escritora e jornalista, autora e roteirista das HQS Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética Questions for a Live Writing e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Contemplado pelo ProAC de Literatura 2014, Oito do sete é o seu primeiro romance.

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