domingo, 18 de junho de 2017

O incêndio


Claudio Parmiggiani

O incêndio (*)
Alexandre Staut

No quadro de avisos da prefeitura, logo na entrada do hall, um cartaz improvisado, em pincel marca-texto verde, faz a contagem regressiva para o fim das atividades anuais. “Senhores leitores, o serviço de biblioteca entra em férias a contar do dia 23 de dezembro do corrente ano, voltando no dia 7 de janeiro. Agradecemos as visitas realizadas. Desejamos Feliz Natal e um Ano Novo de realizações. Obrigado, desde já!”

No mesmo quadro de avisos institucionais, uma pequena placa anuncia a audiência de dias atrás entre prefeito e secretário de cultura, sobre a dedetização contra os cupins, que tomam conta da construção há anos. Somos um prato cheio para eles, os cupins. Tomaram conta dos telhados forro vigamentos partes do piso janelas portas ripas armários escrivaninhas mesinhas cadeiras balcão e divisórias e, pior, das peças do acervo.

Muita gente diz que a biblioteca devia fechar as portas. O prédio tem infiltrações, o sótão virou ninho de pombas, os moradores daqui não leem tanto assim, a biblioteca já cumpriu sua missão, conforme dizem políticos locais, discurso repetido com ponto e vírgula por parcela da população, frases que chegam, vez ou outra, aos meus ouvidos.

Outra volta ao redor de meu eixo e avisto a entrada do edifício, o piano, também tomado por cupins. Chegam a fazer barulho em seu banquete contínuo. Supostamente, Mário teria extraído toadas do instrumento, tendo ao seu lado três ou quatro mecenas locais. Há ainda outra história, contada por um antigo funcionário. A figura ilustre a se sentar na banqueta que compõe o instrumento foi Dom Pedro II, numa de suas viagens à região. Mitomania, talvez, não se sabe. O monarca, diz o colega, teria tirado suas botinas, para coçar os pés, à medida que dedilhava as peças sonoras. Tinha frieiras e forte odor entre os dedos. Eu rio ao ouvir a história, repetida de duas a três vezes ao ano, pelo servente municipal, que, de vez em quando, passa por aqui para quinze minutos de prosa e um café.

Deixo de lado o ilustre piano e os meus olhos correm pelas portas internas que separam os vários ambientes, os janelões de pintura gasta, uma dezena deles, que abro e fecho diariamente. O sol deve entrar na casa, livrando-a do rastro de mofo deixado pelas chuvas de verão.

Joseph Beuys, Infiltration homogène pour piano à queue, 1966 

No meu passeio em torno do meu próprio eixo, vejo esse mundo em vertigem e a velocidade faz com que aspire o vento adocicado, que se desprende dos volumes. Olho para o relógio de parede, na tentativa de parar o tempo, relembrando de um momento em que a casa era mais visitada.

Observo mais uma vez o mundo ao redor, agora quase em câmara lenta, até perder a visão no tampo da mesa e então percebo o cenário que não muda há décadas, as fileiras organizadas.

Os títulos, sei de cor. Nossa biblioteca nunca foi como a de Alexandria, a de Paris, a Mário de Andrade, na capital, antes ou depois do restauro. Mas, é preciso dizer, tem luz própria, sobrevivendo aos tropeços, ofegante nos últimos tempos, mas ainda distante de um possível suspiro final.

Tenho a impressão de que as obras se encaixam meio bambas, umas às outras, espremem-se, sobressaindo-se as mais volumosas ou então aquelas em capa de couro com frases gravadas em dourado, no meio disso a que muitos chamam de bagunça, mas que nada mais é do que a ordem natural de livros que se ajustam, de forma harmoniosa.

A arrumação semanal é feita toda quarta-feira, no período matinal. Hoje em dia, Ceição, a faxineira, espana o pó das lombadas, mas já houve época em que tirava cada um dos livros do lugar, colocando-os em seguida no exato nicho de antes. Uma arrumadeira com obsessões dignas de um bom bibliotecário.
“Para que uma casa funcione bem são necessárias regras”, fala a servente, sempre da sua visita. Cada vez que a vejo, penso na arrumação primeira das prateleiras. Mas não saberia dizer quais foram as condutas utilizadas para a criação do espaço e a sua organização. Já dediquei uma pequena investigação a isso, tão logo comecei a servir a casa. Mas não há registros das preliminares... nome de autor sobrenome ano de publicação identidade de temas volumes nacionais estrangeiros...

Lá atrás, ao tentar decifrar os critérios utilizados para o funcionamento deste lugar, cheguei sempre à mesma notícia: os primeiros livros reunidos foram da coleção particular de dona Irene Souza da Silva, ou apenas dona Irene, herdeira do sobrado. Um dia, transformou a casa dos pais, aposento por aposento, neste universo, que pouco depois se tornaria o orgulho da cidade, um dos cantos mais respeitados pelos nossos munícipes, até se transformar num dos mais esquecidos de todos.

Bernard Aubertin, Tableau feu I

Dizem que faltam cadeiras confortáveis, limpeza para a retirada do mofo, computadores, que a forma de funcionamento da casa envelheceu. Alguns falam que virei parte da movelaria e que cheiro a mofo; outros me chamam de bicha beletrista do século passado, veado dos livros. Um associado chegou a dizer, nas épocas de barba, que eu era o profeta da cidade, outro, fala que vivo dentro de um conto de Jorge Luis Borges, observação que fez os meus olhos brilharem.

Mas o que faço mesmo é tentar colocar alguma ordem nas prateleiras, facilitar a vida dos frequentadores, colar pequenas placas indicativas nas estantes, prosa poesia filosofia filologia gramática religião técnicos em geral... tentativa de ordenar. Mas, para cada livro que arrumo, uma prateleira inteira desaba em cima da minha cabeça. Para conter o caos, arrumei algumas dezenas de classificações, e, dentro de cada uma, outras mais específicas. Nome do autor a partir do sobrenome é um dado predominante, mas há prateleiras que não seguem a premissa.



xxx

Fotografia de Giuliana Nogueira


Alexandre Staut é escritor e editor de livros. É o idealizador da revista literária eletrônica São Paulo Review e autor do livro de auto-ficção Paris-Brest (2016).


* Trecho do romance inédito O Incêndio de Alexandre Staut, narrado por um bibliotecário, sobre os últimos suspiros de uma biblioteca decadente prestes a ser incendiada. 

Um comentário:

  1. Ale: Muito bom o texto, eh essa a terrível realidade dos acervos públicos em flagrante abandono causado pelas "autoridades", A foto da nossa Biblioteca, Museu e Pinacoteca Municipal "Dr. Abelardo Vergueiro César" eh uma linda homanagem aqueles que a idealizou!!

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