sexta-feira, 30 de junho de 2017

Uma biblioteca, uma paixão, uma vida...


Uma biblioteca, uma paixão, uma vida...

Fábio Pereira Ribeiro

Assim que saia da escola, depois de uma oficina de ajustagem mecânica, com um professor que não sabia o que era um esquadro, mas ao mesmo tempo sabia tudo sobre como matar uma peça, lá estava eu de frente com a Biblioteca Municipal do Tatuapé. Adorava, todas às terças-feiras, me ver naquela biblioteca. Pois, antes da aula de assassinatos de peças, eu tinha a minha querida professora de Literatura Brasileira e Portuguesa para alegrar meu dia. Kiki era seu nome, a palhaça, a mesma que um dia diria que a literatura era a confirmação de que tínhamos uma alma, com certeza, até mesmo pelas suas palhaçadas literárias. Eu só era um menino com quatorze anos que vinha lá da Penha, antes do Carrão, ainda perdido nos ônibus da Avenida Celso Garcia. 


Mas me ver entre aquelas prateleiras cheias de saber, ahhh….., de fato, aí sim eu me sentia em uma escola, em um mundo onde sentia cada livro. Lá eu não tinha Facebook, mas tinha Conan Doyle, tinha Machado de Assis, tinha Ulysses do Joyce e dos gregos, como também tinha toda loucura de Bocage, além daqueles livros infantis de espionagem cujo nome dos autores me esqueço, mas que marcaram, como também Éramos Seis sabendo que todos éramos. Lá estava eu em um mundo onde a verdade acontecia, principalmente para um moleque que somente queria conhecer o mundo a partir da Biblioteca Municipal do Tatuapé lá da Avenida Celso Garcia, onde Martins Pena se apresentava para mim e chamava seu Juiz de Paz na Roça para marcar que de fato eu tinha razão. De lá, eu voltava para casa, para minhas bolinhas de gude, quiçá para meus piões, dependia do mês, de vez em quando íamos jogar uma bola na Vila Manchester além do Atlético Carrão. Éramos leitores, além de boleiros, pelo menos eu e meu amigo Leandrinho. 


Na Vila Manchester passávamos pela escola de Boxe, pelo futebol da várzea, como também pelos atletas do arremesso, mas a biblioteca era nosso paraíso, principalmente quando chegávamos. Advinha qual o primeiro livro que lá peguei emprestado? Capablanca, Xadrez. O primeiro manual de Xadrez do grande mestre cubano Capablanca. Me lembro ao sentar naquelas cadeiras de madeira de lei, sei lá qual lei, em uma biblioteca que hoje vive no passado, onde só de sentir os livros você percebia que era livre, só pelo sentido de ter sua carteirinha e poder levar consigo algo que era da gente, público, de ser brasileiro, de ser de uma biblioteca. Só de sentir aquele livro só meu, naquela mesa de madeira, eu senti a verdadeira liberdade. Não é a toa que quando estou em Paris e vejo as filas que se fazem à frente da biblioteca perto do Panthéon, percebo que uma biblioteca torna-se o local de encontro para a busca da liberdade, como um arauto de reflexão que ilumina o ser humano a cada contato.

Meu maior prazer era ir até uma biblioteca, lá no Carrão, como também no Tatuapé, mesmo depois de uma partida de futebol, de uma linha, quiçá de uma aposta de piões. Na Biblioteca da Manchester eu era eu, eu conheci muita gente importante lá, inclusive uns estrangeiros que até hoje me ajudam a escrever. Hemingway, Gertrude Stein, um tal de Scott, e também um louco padre chamado São Francisco de Assis (meu padre). Foi uma biblioteca, não uma igreja que me fez crer que Deus é verbo em letras, pelos seus seres humanos, seus.



Em uma biblioteca tive o prazer de estar nas dunas de Mangue Seco e sentir o calor e os lábios de Tieta, como também me imaginei naquele bonde do Rio de Janeiro a esperar por Cinco Minutos, ou até mesmo compreender o que seria a nossa São Paulo desvairada. Em duas horas presentes em uma biblioteca eu viajava o mundo, era mais barato, principalmente para um menino pobre da Zona Leste de São Paulo. Sinto saudades das minhas bibliotecas, inclusive das escolas, me lembro daquela cheia de grades na escola municipal em que estudei lá na Parada XV. Parecia uma verdadeira cadeia, mas éramos libertados pelos livros que lá estavam.


Basta estar em uma biblioteca para o mundo ser mais feliz. Quando vejo destruírem bibliotecas, eu penso, eles atacaram o centro nervoso da humanidade, a paixão do ser humano, a única representação de fato onde todas as inteligências se encontram sem discutir, onde o amor se faz em livros! 

Por favor, vá a uma biblioteca, leia o livro, e pegue um livro emprestado, cada tempo emprestado à biblioteca vale muito, pois você perceberá que o mundo e o futuro estarão sempre do seu lado.

Xxx



Fábio Pereira Ribeiro é Vice-Presidente do Grupo Educacional Caelis com sede na Bahia, autor do romance Um Dry Martini para Hemingway,  publicado pela Editora Simonsen em 2016. Fábio Pereira Ribeiro participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien e do Salão do Livro de Paris 2016. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O meu clube é a literatura


O meu clube é a literatura
Julia Wähmann

Os últimos anos têm sido um desafio constante para o mercado editorial. O esvaziamento dos programas de compra de livros nas esferas federal, estadual e municipal afetou a economia das editoras. A queda nas vendas de varejo também, e tudo o mais que pode ser justificado pela crise – possivelmente a palavra mais falada em toda a parte – se reflete por toda a cadeia do livro no Brasil, uma rede que já enfrenta seu maior problema há tempos, o baixo índice de leitura do país.

Foi neste cenário desolador que surgiu o convite para tirar do papel uma ideia já formatada em planilhas e pesquisas pelo Gustavo Barbeito, financista e empresário que me propôs colocar em prática um projeto que soa quase anacrônico: um clube do livro. Ou melhor, seis clubes do livro. Em setembro de 2016 colocamos no ar o Garimpo Clube do Livro, site que reúne propostas de curadoria de leitura para diferentes perfis, mediante uma assinatura mensal.


Meu primeiro pensamento foi: quem é que vai querer pagar por um livro surpresa? Quem, em tempos inóspitos, vai querer investir nesse encontro às cegas com a literatura? Será que existe, de fato, um público que confia em indicações e nos Correios? Antes de saber a resposta para as minhas dúvidas, algumas investigações apontaram para o alívio. Topei com alguns modelos de clubes de livro bem-sucedidos, com adesão de números expressivos de assinantes-leitores que demonstram, por meio dos canais de mídia social, um entusiasmo comovente por esse objeto que também me move.

Talvez o precursor para essas iniciativas tenha sido o mesmo, o Círculo do Livro. De 1973 a 2000 o Círculo, parceria da editora Abril com a alemã Bertelsmann, que depois teve outros sócios, montou um catálogo com títulos a serem escolhidos por assinantes. E não foram poucos: o Círculo chegou a ter 800 mil inscritos, o que hoje parece uma utopia. 

A minha utopia – ou melhor, nossa, porque o Garimpo, além do Gustavo, conta com uma sólida colaboração dos nossos parceiros curadores e leitores – é a resposta diária e afirmativa para as minhas angústias iniciais. Montamos os clubes que o compõe com a preocupação de oferecer diversidade aos leitores, com a certeza de que o gosto e o hábito da leitura se consolidam quando o encontro com os livros é subjetivo, afetuoso, pessoal. A ideia de ter linhas curatoriais distintas busca viabilizar esse encontro.

Os leitores podem escolher entre clubes de poesia, ficção, livros de autoria exclusivamente feminina. O clube de negócios visa a leitura mais instrumental e pragmática, mas sem perder a ternura. E os livros infantis, selecionados para as diferentes fases de leitura das crianças, são o xodó absoluto de todos os adultos envolvidos. Para além da seleção primorosa feita pela Elisa Menezes, ali está a base da formação do leitor, e ainda um elo que aproxima os mediadores que introduzem os pequenos no universo literário.


Gosto da imagem de alguém que nos guia de mãos dadas, e por isso todos os livros selecionados nos clubes chegam às casas dos leitores com uma carta de apresentação. Longe dos padrões de resenhas de veículos especializados, os textos talvez se pareçam um pouco com este que você lê agora: estamos todos misturados às leituras propostas. Quando elejo um livro para os leitores do meu clube, conto a eles, em texto, as razões dessa escolha, e pincelo alguns detalhes sobre quando ou como o li – numa praia, em casa de pijama, na tela do computador quando ainda trabalhava como editora e administrava as descobertas com colírio frente à tela luminosa. Todo mês, ao receber os textos dos curadores dos demais clubes, me delicio com suas observações e revelações, e percebo como essa avaliação prévia já me lança ao livro de maneira diferente, mais curiosa e aberta ao que ele tem para me oferecer.

É reconfortante confiar nessas indicações. É como adentrar um ambiente desconhecido com algumas cartas na manga, o equivalente a entrar, hoje, em livrarias ou sebos repletos de títulos, capas, nomes e cores que muitas vezes desnorteiam até os profissionais do mercado – isto é, quando o seu bairro ou município têm livrarias ou sebos. Um dos muitos paradoxos do Brasil é este, a quantidade de livros publicados em oposição a uma demanda real, e que evidencia um ciclo vicioso da cadeia: as traduções são mais numerosas que as edições de autores nacionais, e quase sempre os livros que recebem mais investimento em divulgação são os que já vêm chancelados por boas vendas no exterior. É de fritar o cérebro.

Tenho uma alegria imensa em furar um pouco essa lógica através do Garimpo, e colocar em circulação títulos que ficaram esquecidos ou que passaram desapercebidos nesse mar caudaloso de lançamentos; livros que fomos conhecendo dos catálogos das editoras pelas quais passamos, publicações de novas casas editoriais, ou de editoras artesanais/independentes que não têm vez em livrarias. Nosso garimpo de uma vida de leituras, que agora podemos dividir com leitores ávidos por novidades, e que às vezes só precisam de um incentivo. Amós Oz disse, em uma palestra, que a boa literatura nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros, por isso é um prazer preparar todo mês os pacotes que levarão tantos mundos aos leitores. Acredito que as noções de empatia e tolerância que a literatura desperta se fazem cada vez mais urgentes.



Outra alegria é poder contribuir, em forma de doações mensais, para o acervo feminista da Biblioteca Pública Municipal Cora Coralina, sob coordenação de Cléo Lima, em São Paulo, parte da parceria do Garimpo com o clube Leia Mulheres. Nas palavras da Cléo: “Em 4 de julho de 2015, a Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, inaugurou a primeira sala temática feminista de São Paulo. Concebida a partir da vocação natural do espaço da biblioteca, que já recebe o nome de uma marcante escritora brasileira, o local se propõe a valorizar a luta e as ações do movimento em defesa dos direitos das mulheres.”

Recentemente, aqui neste mesmo blog, o Carlos Henrique Schroeder contou sobre a importância das bibliotecas em sua formação como leitor, um relato que certamente encontra ecos pelo país adentro, e que nos faz querer chorar diante da calamidade que grande parte desses espaços atravessa. Mas não choremos. Sigamos adiante em nossas utopias, afinal se uma parcela delas vingar e revelar às pessoas algo que elas não conheciam, já terá valido a pena.

xxx



Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou os independentes Diário de Moscou (7Letras/Megamíni) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Coordena o Garimpo Clube do Livro desde sua criação. Julia Wähmann participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 




Bibliotecas, modos de usar


Bibliotecas, modos de usar
Lúcia Bettencourt

Tive a sorte de ter nascido numa família que amava os livros. Em minha casa sempre houve livros, em estantes abarrotadas, fechadas com portinhas de vidro, difíceis de abrir. Eram livros encadernados, capas de couro, letras douradas. Em sua maioria traziam o nome de meu bisavô, e o de meu avô. Mas eu sabia que eram de todos, até mesmo meus, caso descobrisse alguns que me interessassem. Alguns se desconjuntavam e estavam amarrados com barbantes. Outros ainda tinham as páginas unidas, indício de que não haviam sido lidos. Muitos tinham furinhos de traças, formando gracioso rendilhado que eu, criança ainda, achava bonito, sem entender que eram ameaças.

Não admira, portanto, que minha descoberta das bibliotecas públicas fosse coisa tardia. Como cheguei a elas? Por sorte: Havia, no caminho de minha escola, numa esquina da Avenida Atlântica, a Biblioteca Thomas Jefferson, com livros em inglês ou de autores de língua inglesa, já traduzidos. Quem era aluno do IBEU tinha acesso àqueles tesouros. Eu não era. Mas tinha uma amiga querida que era, e compartilhávamos os livros de Laura Ingalls Wilder. Ela pegava dois, ficava com um e eu com outro, e depois trocávamos livros e comentários. Li muita coisa com ela, e adorava. Mas nunca entrei na biblioteca, pois não tinha “carteirinha”. Um dia, vindo para o distante Leblon – o bairro já foi um “lá longe”, onde poucos se aventuravam – passei por uma rua pacata, quase erma, de predinhos baixos e vi o que me pareceu ser uma livraria. 


As portas abertas me convidavam a entrar, mas logo percebi algo muito diferente:  os livros ficavam todos arrumados em estantes e pareciam velhos. Havia mesas, onde pessoas, poucas, se sentavam lendo, havia um balcão com duas mulheres silenciosas, e gavetas com centenas, ou talvez milhares de fichas.



Entrei, olhei, toquei numa lombada, em outra…  Finalmente tomei coragem e peguei um livro. Li uma ou duas palavras, mas sem conseguir me concentrar, pois não sabia o que fazer em seguida. Fiquei ali, na sala sem muitos atrativos, sem desejo de me sentar na cadeira dura e desconfortável, e sem saber onde colocar o livro. Depois de alguma hesitação, resolvi caminhar até o balcão, e deixá-lo sobre o mesmo. Uma das mulheres, ao sentir que me aproximava, levantou os olhos, me olhando por cima das lentes dos óculos. Muito tímida, eu não soube o que fazer. Fiquei congelada, o livro nas mãos parecendo pesar uma tonelada, meu rosto quente, suado. O instante se prolongou indefinidamente. Senti meus olhos se enchendo de lágrimas e estava prestes a fugir, para não chorar em público, quando a mulher me informou:

          – Não emprestamos obras de referência.
E mais não disse, nem sequer voltou a me olhar.
O que seriam “obras de referência”? Não fazia ideia. Recuei, passo a passo, até me encostar numa mesa. Puxei a cadeira, que fez barulho.
          – Sshhh!

As mulheres do balcão me olhavam com fisionomias desaprovadoras e o homem de chinelo, sentado em outra mesa, interrompeu a leitura da revista, também com ar zangado.



Fiquei sentada, rígida, até sentir as pernas dormentes da posição desconfortável. Tomei coragem, abandonei o livro aberto sobre a mesa, deixando à mostra o verbete que tinha lido inúmeras vezes: “angústia, substantivo feminino.1. Ansiedade intensa; AFLIÇÃO; AGONIA, 2. Sofrimento, 3. Psiq. Medo sem causa identificada, 4. Estreiteza, aperto.
[F.: Do lat. angustia. Hom./Par.: angústia(s) (sf.[pl.]), angustia(s) (fl. de angustiar).]



Esgueirei-me, consegui sair, e voltei a respirar, disposta a nunca mais voltar àquele lugar. Por uma coincidência quase inverossímil, esbarrei numa colega de colégio, uns dois anos mais velha, que me segurou e perguntou onde eu estava indo.

Para casa, disse. E a amiga, com a segurança que os seus dois anos a mais lhe emprestavam, me informou que queria passar na biblioteca para pegar um livro e que eu iria junto. E foi assim que voltei ao lugar de onde acabava de sair. Aprendi os mistérios da biblioteca pública do Leblon, que ficava aqui na Dias Ferreira, onde hoje é a Livraria Argumento. Observei enquanto ela abriu a gaveta, anotou os números da ficha identificadora do livro. Perdi o medo de me dirigir as bibliotecárias, passei a fazer empréstimos de livros e ampliei ainda mais minha relação com a palavra escrita. Mas isso tudo foi depois de fechar o dicionário que tinha sido abandonado sobre a mesa, deixando a angústia lá dentro. Biblioteca, afinal, é lugar de liberdade.




P.S. Hoje a Biblioteca Pública do Leblon está localizada na Bartolomeu Mitre. E a Biblioteca Thomas Jefferson saiu de sua esquina na Avenida Atlântica, mas não sei para onde se mudou…

Xxx


Lúcia Bettencourt é escritora, carioca, e gosta tanto de bibliotecas que tem a ousadia de pensar que pode ter uma em casa. Depois de aprender a usá-las, frequentou bibliotecas maravilhosas como Sterling e Beineke, em Yale, e a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.


domingo, 25 de junho de 2017

A descoberta da pitanga e da Chácara do Castelo


A descoberta da pitanga e da

Chácara do Castelo

Paula Fábrio

Devia ter oito anos quando empreendi minha primeira expedição. Desceríamos o escadão da rua de trás da minha casa. Eu e cinco corajosos seguidores. Todos oscilando entre o fascínio da liberdade e o temor do desconhecido. O percurso compreendia descer o escadão, que eu havia provado por a + b desembocar numa rua cuja saída dava para a avenida de onde saía o quadrado perfeito que formava nosso pequeno bairro e mundo; em seguida, poderíamos correr, caso o medo nos tomasse de assalto (mas isso eu não falei) e, logo depois, a primeira direita nos levaria de volta ao terreno seguro de nossas casas. Não foi difícil convencê-los.

Não deu tempo de concluir a explicação, dois deles já se agitavam escadaria abaixo.

Descemos feito loucos os degraus de pedra e chegamos já sem fôlego à rua. Paramos. Coração na boca. Dia claro. Sob a árvore. Foi quando avistamos os pequenos frutos de cor laranja sobre nossas cabeças. Ergui o braço e apanhei um deles. Os outros seguiram meu exemplo. Seria venenoso? Num ato de bravura, provamos. Todos ao mesmo tempo. Começava doce. Um azedo no final. A menorzinha e mais sabida nos informou que eram pitangas e não morreríamos por isso. 

Enfim, a primeira etapa da aventura se provou vantajosa. Mas não era só isso, dali a instantes eu desceria outra escada, fora da rota estabelecida, sozinha, e esse caminho me levaria a outro mundo, sem volta.

Com os bolsos lotados de pitanga, prosseguimos. Tudo era novo, cada veio de calçada, cada pneu de bicicleta no quintal, uma janela mais velha, um poste tombado. Então surgiu uma curva. A curva nos mostrou um casarão branco no meio do mato, do outro lado da rua, mas a uma distância incrível. Como acessá-lo? Era um parque? Um terreno público? No meio do vão, com os rostos colados no alambrado, vimos lá embaixo, bem embaixo, um campinho de futebol, e do outro lado da curva, na direção contrária às nossas casas, o casarão.

Eu vou até lá! Mas prestem atenção: vocês precisam voltar para casa. Falei com liderança, afinal eu era a mais velha da turma. Eles concordaram. Repassamos o caminho e eu os segui com os olhos até a curva acabar.

Havia chegado a minha vez. Algo me atraía para o casarão.



Saí em disparada, contornei pela rua, ali do alto, o campinho de futebol inteiro. Logo adiante, as casas se tornaram escassas e um muro branco muito comprido seguiu meus passos até o portão de ferro com a inscrição Biblioteca Chácara do Castelo. Portão aberto. Considerei se seria correto eu entrar. Aquele prédio não era meu. Creio que foi a primeira vez que me deparei com a confusão do que seria público ou privado. Crianças tomam decisões muito rápido.

Passei o portão e me deparei com uma escada de dois lanços. O casarão lá embaixo. No patamar da escada, um jovem fumando. Tive medo, mas achei vergonhoso voltar atrás, afinal, ele não estava nem aí para mim. Quando cheguei lá embaixo, já livre do perigo - porque agora com a presença de outras pessoas -, divisei a porta de entrada, as funcionárias atrás de suas máquinas de escrever, dezenas de arquivos com fichas; jornais, revistas, gibis e livros, muitos livros sobre as mesas e também nas estantes de ferro. Ninguém se incomodou comigo e por esse simples motivo o ambiente me conquistou. Um silêncio protetor. Eu podia mexer nas prateleiras, à vontade. E aquelas mulheres sentadas à máquina de escrever pareciam confiáveis como minha professora da escola. Sentei-me em uma das mesas redondas e coletivas. Ninguém se importou. Achei isso o máximo. Olhei ao lado, havia gente lendo, e os livros poderiam seguir comigo até em casa, a única caução era uma ficha com meu nome e sobrenome. Todos aqueles livros eram meus. Todos. Eu me senti a pessoa mais importante do mundo. Fiz minha carteirinha e voltei ali dezenas de vezes, até um dia crescer e querer outros livros que moravam em bibliotecas maiores e mais distantes.  Posso dizer, voltei à Chácara do Castelo com insistência e carinho. Com desejo e volúpia. Carente, suplicante e insaciável. Mesmo que os livros fossem amassados, sujos e maltratados. Mesmo que meu pai insistisse em comprar um exemplar novinho na Siciliano do centro. Eu queria estar ali. Na biblioteca.  

Naquele dia, ao voltar para casa, contei minha aventura aos meus pais. Esvaziei os bolsos e mostrei as pitangas (ai, eu já havia me esquecido delas e do começo daquele dia) e também exibi a carteirinha. Eu tinha realizado algo útil, no mínimo. Minha mãe fritava um pastel ou coisa parecida. Sem tirar o olho da panela, respondeu: ah, isso é pitanga, não tem gosto de nada. Em seguida, ela viu a carteirinha da biblioteca, eu expliquei, mas ela não entendeu. Já na rua, mais tarde, foi a vez das outras crianças, ninguém achou graça na tal de biblioteca.

Ninguém.

Por isso, anos mais tarde, quando fui trabalhar no Anhangabaú e não conseguia segurar dois minutos de conversa com os colegas da agência de propaganda, descobri que as pitangas e as tardes na Chácara do Castelo estavam tão dentro de mim, que as poderia levar até o prédio ainda não reformado da Biblioteca Mário de Andrade e suportar, por fim, a hora inteira do almoço.



Xxx



Mestre e doutoranda em Literatura pela USP, Paula Fábrio dá aulas de escrita criativa e mantém uma coluna na Revista Pessoa. Seu romance Um dia toparei comigo (Foz) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e agraciado com a bolsa ProAC. Seu primeiro livro, Desnorteio (Patuá), venceu o mesmo prêmio em 2013, na categoria estreante. Paula Fábrio participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



quarta-feira, 21 de junho de 2017

As bibliotecas em mim

As bibliotecas em mim

Carlos Henrique Schroeder

A vida é uma gangorra e sempre te leva ao passado. Nasci em Trombudo Central, há praticamente quatro décadas, em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, que nunca ultrapassou os dez mil habitantes (para sua sorte ou desgraça). Na era pré-internet as bibliotecas eram o Google, mas especialmente para quem morava em cidades sem livrarias, como eu, as bibliotecas eram o contato com o mundo exterior. Estar numa biblioteca era estar no mundo, e eu passei minha adolescência naquele mundo, o das bibliotecas públicas da minha região.

Primeiro, na Biblioteca Pública Presidente Getúlio Vargas, fundada por meu avô, no então distrito de Braço do Trombudo, onde morava (um vilarejo no interior de Trombudo Central); depois, na Biblioteca Pública Municipal Cruz e Sousa, em Trombudo Central; e por fim, no centro do universo: a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos (criada em 21 de outubro de 1953) em Rio do Sul, maior cidade da região (a vinte e quatro quilômetros de distância). Lá, as prateleiras eram incontáveis e os volumes ocupavam dezenas e dezenas delas.


No início, quando era um pré-adolescente, minha mãe ia comigo, a cada quinze dias, de ônibus, para escolher três livros (o permitido), depois passei a ir sozinho. A felicidade era uma escala crescente, mais ou menos assim: o trajeto de ônibus e a ansiedade de chegar à biblioteca, a escolha dos livros (que demorava horas) e as leituras. Esse ritual quinzenal é o que sobra da minha adolescência, é onde estão as lembranças mais vívidas. Não foi a descoberta do sexo, ou da amizade ou do amor, pois as três coisas vieram acompanhadas de decepções e foram lá para trás, para o sótão mais distante. Enquanto minhas caminhadas pelos corredores da biblioteca, o tatear por filas de livros e estantes, a descoberta de grandes livros, sempre estiveram numa área luminosa, ao primeiro alcance da memória. Ninguém me falou de Franz Kafka, eu não li sobre ele em uma revista ou alguém me entregou nas mãos e disse “leia isso, cara, agora”. Eu descobri sozinho, de joelhos, numa prateleira periférica. E estavam lá A metamorfose, O processo e Carta ao pai. Os títulos insólitos e diferentes nas lombadas e as capas sombrias desafiaram o jovem leitor, que já foi devorando as páginas no retorno sacolejante do ônibus.

E como se vive depois de Kafka? Ele te conecta com outro mundo, contemporâneo (“contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Agamben, Giorgio), de verdade. E você quer, cada vez mais, repetir essa experiência de escuridão, e vai lendo coisas cada vez mais desafiadoras, e entra num caminho sem volta.



E você começa a se deparar com fantasmas entre as prateleiras da biblioteca, um dia você encontra Mersault, em outro, Madame Bovary, esbarra no escrivão Bartleby ou no cínico Bento Santiago ou na poesia corroída por vermes de Augusto dos Anjos.

Então aquela biblioteca, que era a porta do mundo, passara a ser também a porta dos meus instintos mais sombrios, como leitor, como ser caminhante.

E você se atreve a escrever, sim, a escrever.

Montei (com dezessete anos)  o primeiro jornal do (já emancipado de Trombudo Central) município de Braço do Trombudo, o jornal Gazeta Tradição, um periódico mensal de variedades que me valeu um passaporte para escrever um ano mais tarde no Diário do Alto Vale. Comecei como jornalista, mas o que gostava mesmo era de escrever resenhas de livros, e contos.

Agora também já tinha acesso para a farta biblioteca dos meus avós paternos, com as coleções do Hemingway, Maupassant e dos ganhadores do Nobel, mas a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos, com seus milhares de volumes, continuava a ser meu destino predileto.

Essa pequena crônica, de um leitor faminto, adotado por uma biblioteca, pode soar como uma brisa, mas quem conhece as bibliotecas, de verdade, sabe que todas são habitadas pelos espectros de seus leitores. Então ainda estou lá, com os cabelos longos, olhar vago, indo de um corredor para outro, acreditando que cada prateleira era um continente. E era. Tempestade.



XXX

foto de Thays Magalhães

Carlos Henrique Schroeder nasceu no da 9 de junho de 1978 em Trombudo Central, em Santa Catarina.  Vive em Jaraguá do Sul, no norte do estado. Publicou vários livros, entre o conto, o romance e a dramaturgia, com destaque para as seguintes obras:  o romance "Ensaio do vazio”, lançado em 2007 e adaptado para os quadrinhos em 2012 pela editora carioca 7Letras. A coletânea de contos "As certezas e as palavras”, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2010. O romance "As fantasias eletivas”,  lançado no Brasil em 2014 pela editora Record e na Espanha em 2016 pela Maresia Libros. O livro também foi indicado nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe nos anos de 2016 e 2017. Eleito o melhor romance do ano de 2014 pela Academia Catarinense de Letras e semifinalista do prêmio transnacional Oceanos Itaú Cultural. Outro destaque é "História da chuva" (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultural. É editor-associado da Revista Pessoa, única publicação destinada à divulgação da literatura lusófona no país, desde 2014. Assina a coluna de literatura do jornal Diário Catarinense, todas as quartas-feiras, desde 2014.




domingo, 18 de junho de 2017

O incêndio


Claudio Parmiggiani

O incêndio (*)
Alexandre Staut

No quadro de avisos da prefeitura, logo na entrada do hall, um cartaz improvisado, em pincel marca-texto verde, faz a contagem regressiva para o fim das atividades anuais. “Senhores leitores, o serviço de biblioteca entra em férias a contar do dia 23 de dezembro do corrente ano, voltando no dia 7 de janeiro. Agradecemos as visitas realizadas. Desejamos Feliz Natal e um Ano Novo de realizações. Obrigado, desde já!”

No mesmo quadro de avisos institucionais, uma pequena placa anuncia a audiência de dias atrás entre prefeito e secretário de cultura, sobre a dedetização contra os cupins, que tomam conta da construção há anos. Somos um prato cheio para eles, os cupins. Tomaram conta dos telhados forro vigamentos partes do piso janelas portas ripas armários escrivaninhas mesinhas cadeiras balcão e divisórias e, pior, das peças do acervo.

Muita gente diz que a biblioteca devia fechar as portas. O prédio tem infiltrações, o sótão virou ninho de pombas, os moradores daqui não leem tanto assim, a biblioteca já cumpriu sua missão, conforme dizem políticos locais, discurso repetido com ponto e vírgula por parcela da população, frases que chegam, vez ou outra, aos meus ouvidos.

Outra volta ao redor de meu eixo e avisto a entrada do edifício, o piano, também tomado por cupins. Chegam a fazer barulho em seu banquete contínuo. Supostamente, Mário teria extraído toadas do instrumento, tendo ao seu lado três ou quatro mecenas locais. Há ainda outra história, contada por um antigo funcionário. A figura ilustre a se sentar na banqueta que compõe o instrumento foi Dom Pedro II, numa de suas viagens à região. Mitomania, talvez, não se sabe. O monarca, diz o colega, teria tirado suas botinas, para coçar os pés, à medida que dedilhava as peças sonoras. Tinha frieiras e forte odor entre os dedos. Eu rio ao ouvir a história, repetida de duas a três vezes ao ano, pelo servente municipal, que, de vez em quando, passa por aqui para quinze minutos de prosa e um café.

Deixo de lado o ilustre piano e os meus olhos correm pelas portas internas que separam os vários ambientes, os janelões de pintura gasta, uma dezena deles, que abro e fecho diariamente. O sol deve entrar na casa, livrando-a do rastro de mofo deixado pelas chuvas de verão.

Joseph Beuys, Infiltration homogène pour piano à queue, 1966 

No meu passeio em torno do meu próprio eixo, vejo esse mundo em vertigem e a velocidade faz com que aspire o vento adocicado, que se desprende dos volumes. Olho para o relógio de parede, na tentativa de parar o tempo, relembrando de um momento em que a casa era mais visitada.

Observo mais uma vez o mundo ao redor, agora quase em câmara lenta, até perder a visão no tampo da mesa e então percebo o cenário que não muda há décadas, as fileiras organizadas.

Os títulos, sei de cor. Nossa biblioteca nunca foi como a de Alexandria, a de Paris, a Mário de Andrade, na capital, antes ou depois do restauro. Mas, é preciso dizer, tem luz própria, sobrevivendo aos tropeços, ofegante nos últimos tempos, mas ainda distante de um possível suspiro final.

Tenho a impressão de que as obras se encaixam meio bambas, umas às outras, espremem-se, sobressaindo-se as mais volumosas ou então aquelas em capa de couro com frases gravadas em dourado, no meio disso a que muitos chamam de bagunça, mas que nada mais é do que a ordem natural de livros que se ajustam, de forma harmoniosa.

A arrumação semanal é feita toda quarta-feira, no período matinal. Hoje em dia, Ceição, a faxineira, espana o pó das lombadas, mas já houve época em que tirava cada um dos livros do lugar, colocando-os em seguida no exato nicho de antes. Uma arrumadeira com obsessões dignas de um bom bibliotecário.
“Para que uma casa funcione bem são necessárias regras”, fala a servente, sempre da sua visita. Cada vez que a vejo, penso na arrumação primeira das prateleiras. Mas não saberia dizer quais foram as condutas utilizadas para a criação do espaço e a sua organização. Já dediquei uma pequena investigação a isso, tão logo comecei a servir a casa. Mas não há registros das preliminares... nome de autor sobrenome ano de publicação identidade de temas volumes nacionais estrangeiros...

Lá atrás, ao tentar decifrar os critérios utilizados para o funcionamento deste lugar, cheguei sempre à mesma notícia: os primeiros livros reunidos foram da coleção particular de dona Irene Souza da Silva, ou apenas dona Irene, herdeira do sobrado. Um dia, transformou a casa dos pais, aposento por aposento, neste universo, que pouco depois se tornaria o orgulho da cidade, um dos cantos mais respeitados pelos nossos munícipes, até se transformar num dos mais esquecidos de todos.

Bernard Aubertin, Tableau feu I

Dizem que faltam cadeiras confortáveis, limpeza para a retirada do mofo, computadores, que a forma de funcionamento da casa envelheceu. Alguns falam que virei parte da movelaria e que cheiro a mofo; outros me chamam de bicha beletrista do século passado, veado dos livros. Um associado chegou a dizer, nas épocas de barba, que eu era o profeta da cidade, outro, fala que vivo dentro de um conto de Jorge Luis Borges, observação que fez os meus olhos brilharem.

Mas o que faço mesmo é tentar colocar alguma ordem nas prateleiras, facilitar a vida dos frequentadores, colar pequenas placas indicativas nas estantes, prosa poesia filosofia filologia gramática religião técnicos em geral... tentativa de ordenar. Mas, para cada livro que arrumo, uma prateleira inteira desaba em cima da minha cabeça. Para conter o caos, arrumei algumas dezenas de classificações, e, dentro de cada uma, outras mais específicas. Nome do autor a partir do sobrenome é um dado predominante, mas há prateleiras que não seguem a premissa.



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Fotografia de Giuliana Nogueira


Alexandre Staut é escritor e editor de livros. É o idealizador da revista literária eletrônica São Paulo Review e autor do livro de auto-ficção Paris-Brest (2016).


* Trecho do romance inédito O Incêndio de Alexandre Staut, narrado por um bibliotecário, sobre os últimos suspiros de uma biblioteca decadente prestes a ser incendiada.