sábado, 20 de maio de 2017

Na fila, à espera de….

Na fila, à espera de….
Leonardo Tonus


Ninguém gosta de filas. Eu gosto. Filas sempre fizeram parte do meu cotidiano. Quem se lembra das filas à frente das padarias para se obter um litro de leite ? As filas nos açougues ? Nos correios ? Nos pontos de ônibus ? Quase ninguém hoje as pratica. As filas. Ou melhor. Só as praticam os quem ninguém vê. Ou quer ver. Na minha juventude havia sobretudo as filas nos bancos. Intermináveis filas nas quais perdíamos o dia todo.  Sem celulares. Ou qualquer outro aparelho de distração. Na altura, não se ouvia música nas filas.  Raros eram os que traziam, ao ouvido, o seu radinho de pilha. Para escutar o homem do sorriso do rádio. Os terrores de Gil Gomes. As chamadas matinais de Zé Bétio. Vamo levanta ! Joga água nele ! E os sucessos de Barros de Alencar. Minha irmã e eu gravávamos seus sucessos. Torcendo, todos os dias, pelo nosso cantor favorito.  Hoje ninguém mais come biscoito de polvilho em filas de médico. Ou pipoca doce de canjica em pontos de ônibus. Hoje ninguém flerta em filas. Eu flertava. E muito. Afinal tinha tempo, apesar de minha timidez.  Rapidamente quando a fila fazia a dobra, os olhares se cruzavam. Até a próxima. Até quando o flerte era atendido. Rompendo-se, então, a espera de um possível encontro.  Nas filas, vivíamos a tragédia da espera que fundamenta o seu território. E que não é somente esperança. Nas filas, comentava-se, sempre, o último capítulo da novela. Nas filas elaboravam-se narrativas. E vidas. Na minha juventude as filas não se limitavam aos espaços públicos. Compunham também o nosso ritual cotidiano. Penentrando os lares. Os namoros. Os Noivado. Os casamentos pontuados também pela espera das filas dos consórcios. Até meados da década de 90 tudo se comprava pelos consórcios. Televisores, videocassete, geladeira, máquina de lavar louça. E máquinas de costura. Minha vó pagava o carnê do Baú. Minha vó ganhou uma máquina de costura pelo Baú. A  máquina de costura de minha vó.  A máquina de costura da família, orgulhosa após tanta espera, na fila do Baú. Diziam que minha vó era analfabeta. Não era. Mas aos 60 anos ela foi ao Mobral para aprender a ler. E a escrever. Como seus netos que tanto admirava. Na casa de minha vó havia a melhor laranja lima do mundo. O melhor café com leite que já tomei, foi na casa de minha vó. Dela já muito falei em outros texto. E do gosto do Cleybon Cremoso que lá comíamos.  Esperávamos todos os dias por ele. 


Hoje ninguém mais concebe a espera como um território possível. Pois vivemos a era do atraso, como diz o velho ditado africano.  Que nos interroga, nós ocidentais, sobre a nossa falta de tempo. Apesar de usarmos relógios. E termos  tempo. Ou a vã impressão de o dominar. Hoje poucos habitam os espaços da espera.  Exceto, talvez, os subjulgados por ela. Vivendo a céu aberto a prisão da espera. Migrantes. Presos nos corredores da morte. Refugiados. Estes habitam a espera e o mundo do sem. Sem-teto. Sem-abrigo. Sem-direito. Sans-papiers. Sans-abri. Sans-domicile-fixe. Os sem-espera, como a literatura contemporânea. Desvalida de heróis e gestos magnâmicos, como diria Regina Dalcastagné. A nossa literatura, hoje, pratica e revindica a espera como possibilade de estar no mundo.  E pensá-lo, como estrutura aberta , à espera. Como o protagonista de Rubens Figueiredo em « O passageiro do fim do dia », um dos melhores romances que li nos últimos tempos. Como a Senhora Ramsay de « Rumo ao farol » de Virgínia Woolf. A partir da expectativa da visita ao farol, a autora constrói uma narrativa comovente sobre a espera e as complexas tensões e fidelidades existentes numa família. Como « Transit » de Anna Seghers que evoca a trágica situação dos refugiados políticos alemães na França durante o momento da ocupação. Como a narradora do « Die Mauer » de Marlen Haushofer que vai visitar seus amigos nas montanhas do Tirol. E por eles espera. Mas, ao acordar, se encontra rodeada por uma parede invisível. E passa a habitar o território da espera. À espera daquilo que já sabemos o que irá acontecer. À espera daquilo que também temia Robinson Crusoé. E que ela enfrenta. Diariamente. Com seu cão. Seu gato. Sua cabra. Sua vaca. Habitar o território da espera para melhor enfrentar a maior de todas delas, é o que conta esse livro. A espera daquela que Nilma  Lacerda evoca, brilhantemente, em « Um dente de leite, um saquinho de ossos ». Como Anita de Nilma Lacerda, também tenho um monte de pensamento esquisito. Como Anita também tenho muito medo. Dela, a derradeira. Mas hoje não. Hoje serei Anita. Hoje, vou usar o melhor vestido. Já preparei o chá e uns bolinhos gostosos. E à espera dela estou. Sem temores. Sem rancores. Querem conhecer a minha convidada ? Leiam o livro de Nilma Lacerda e venham tomar um chá comigo e com ela. Estamos à espera!


2 comentários:

  1. Leo Tonus, que texto poético e sábio, sábio demais da conta, como dizem os que são das Minas. Muito grata por dar a mão a Anita, preparar-se para o chá com leite e bolinhos. Mais grata ainda por me ensinar que o corpo da Vida é feito de espera. Saudável espera.

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  2. E eu que acha q detestava fila!!! Porque depois dessa crônica, penso q irei apreciá-las. Obrigada.

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