segunda-feira, 22 de maio de 2017

Filha do trovão e do vento






Identidade
Meu nome é Elizandra
Filha do trovão e do vento...
Gosto de pensar as palavras
...ler os silêncios
...brincar com os livros
...amar é o verbo que mais sei conjugar
Passado, presente, futuro...
Eis que um dia rascunho... maré e terra...
Terra e maré... sou de água, mas sou de terra
Sou de terra e de mar
Quero sentar na areia, receber de leve uma maré
Amar com calma e velocidade
Com velocidade amar....




Meio-termo
Cansei dessa minha poesia educação
Com pernas cruzadas para não mostrar a calcinha
Dessas palavras cheias de entrelinhas
Que não dizem à que veio, cantadas não entendidas
Esse ar de “mocinha” escondendo a “puta”
Essas caras e bocas que não gritam e nem esperneiam

Cansei dessa minha poesia educação
Tão comportada, que irrita
Sempre como faca de dois gumes
Querendo sim, querendo não
Tão boazinha, que gosta de sal e açúcar
Sempre agridoce...
Essa atitude molhinho de pimenta
Que nem arde e nem tempera
Essa quentura banho-maria
Que não queima e nem gruda.


Rio
Hoje amanheci rio,
Não fico no mesmo lugar
Minhas margens não me comprimem
Minhas águas estão a navegar

Hoje amanheci rio,
Vou beber e me banhar
Não quero barco!
Hoje sou redemoinho, pode deixar
Não vou me afogar

Hoje amanheci rio,
Quero anoitecer me encontrando com o mar
Pescar estrelas
E adormecer na brisa do ar

Coroa Imperial
A Salamanda Gonçalves

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Seja gardênia, violeta, rosas vermelhas
Livre! Ele exala e transmite amor
Embaralhado, embaraçando o mundo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Canela, açúcar mascavo e cravo
Mil cheiros, mil flores...
Perfumes de luta, espinhos da resistência

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Amarílis - orgulho -, brinco-de-princesa
Mensageiro, como flor-de-lis
Vida - dente-de-leão, felicidade - flores do campo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Insistente como cacto flor no deserto
Tulipa vermelha, encanto de girassol
Coroa imperial que transborda poder!


Abelha mandaçaia
Tão solitária e negra como eu
Abelha Mandaçaia...
... sem produção de mel
Desabitada a procura de flor
Para bebericar do seu encanto...

Lápis de olhos...
... a esconder águas salgadas
Como não consolidar
este isolamento, que me consome?
Esta falta de mãos grudadas
... pele que não afaga
Estou rifando essa soledade!
Trançar, eu quero, mãos pretas...

É querência de mar, e não de oásis
Perenidades entrelaçadas...
Em estações lunares e solares...

Meu viver tornou-se deserto...
Os dias quentes e as noites congelantes
Um corpo sem afeto...
Repleto de roedoras,
Serpentes
E lagartas...

Peles bem alvas...
Alvejando-me por serem preferidas...
Será mesmo que elas resolvem
esses traumas de pretos meninos?

Em outras facetas, sou eu, serpente
Cascavel do deserto, como queira...
Movimentando-me em silêncio
Para que as inimigas não me vejam...

Sentimentos fósseis...
... expostos pelas erosões
A vida inteira sem beber águas...
Longos jejuns sem morrer...
Força bruta que me dilacera
Estes secos dias, sem chuvas...
Só poeiras machucando minhas retinas.


Em legítima defesa
Só estou avisando, vai mudar o placar...
Já estou vendo nos varais os testículos dos homens,
que não sabem se comportar
Lembra da Cabeleireira que mataram, outro dia,
E as pilhas de denuncias não atendidas?
Que a notícia virou novela e impunidade
É mulher morta nos quatro cantos da cidade...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
A manchete de amanhã terá uma mulher,
de cabeça erguida, dizendo:
- Matei! E não me arrependo!
Quando o apresentador questiona – lá
ela simplesmente retocará a maquiagem.
Não quer esta feia quando a câmera retornar
e focar em seus olhos, em seus lábios...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Se a justiça é cega, o rasgo na retina pode ser acidental
Afinal, jogar um carro na represa deve ser normal...
Jogar a carne para os cachorros procedimento casual...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Dizem, que mulher sabe vingar
Talvez ela não mate com as mãos, mas mande trucidar..
Talvez ela não atire, mas sabe como envenenar...
Talvez ela não arranque os olhos, mas sabe como cegar...
Só estou avisando, vai mudar o placar...

Todos os poemas publicados no livro – Águas da Cabaça, Coletivo Mjiba, 2012.

Xxx



Elizandra Souza é escritora e jornalista, editora responsável pela Agenda Cultural da Periferia,  integrante do Sarau das Pretas e fundadora do Coletivo Mjiba -Jovem Mulher Revolucionária, que desenvolve ações focadas no protagonismo das mulheres negras e periféricas. Ativista cultural há 16 anos com ênfase na difusão da Literatura Negra e Feminina nas periferias de São Paulo. Coautora de Punga com o poeta Akins Kinte, Edições Toró(2007), autora do livro de poesias Águas da cabaça (2012) e organizadora da antologia Pretextos de Mulheres Negras (2013) e Terra Fértil, de Jenyffer Nascimento (2014), traz a experiência e a estética da produção literária que condensa periferia, negritude e feminismo. Idealizadora do evento Mjiba em Ação realizados no CEU Três Lagos nos anos de 2004,2005, 2012,2013 e 2014. Participou do Festival Internacional de Poesia em Havana (Cuba) em 2016.Realiza cursos e oficinas sobre a visibilidade da Literatura Negra e Feminina em parceria com Carmen Faustino. Atualmente também é terapeuta holística com formação em Aromaterapia e Perfumaria Botânica.






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